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Concepção do atlas

Mapas como instrumentos críticos

Este atlas foi concebido a partir de dois vetores. De um lado, as ideias do crítico italiano Franco Moretti. De outro, as propostas do próprio José Alencar a respeito da organização de sua obra, tal como ele as apresentou no prefácio ao romance Sonhos d'ouro, intitulado  "Benção paterna".

Segundo Moretti, as cartas geográficas podem  explicitar relações escondidas na forma literária. Os mapas podem ser úteis para que se veja tanto a natureza espacial delas, sua geometria particular, suas fronteiras, seus tabus espaciais e rotas favoritas, quanto a lógica interna de uma dada narrativa, o domínio semiótico em torno do qual um enredo se aglutina e se organiza (MORETTI, 2003, p. 15). Por meio deles, a forma literária pode aparecer como o resultado de “duas forças conflitantes e igualmente significativas: uma que funciona de fora, e a outra de dentro. Trata-se do problema usual e, no fundo, do único problema real da história literária: a sociedade, a retórica e sua interação” (MORETTI, 2003, p. 15).

Para conhecer as propostas de Alencar em "Benção paterna", passe para o item seguinte desta mesma página, intitulado "O arquirromance alencariano".

Ver a respeito:

MORETTI, Franco. A literatura vista de longe. Trad. Anselmo Pessoa Neto. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2008.

MORETTI, Franco. Atlas do romance europeu: 1800-1900. Trad. Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo, 2003.

Leia mais
MunicipioNeutro1870_edited.jpg

O arqui-romance alencariano

Em “Benção paterna”, prefácio do romance Sonhos d'ouro, Alencar  buscou organizar sua obra em torno de um fio condutor em que se entremeiam as suas ideias sobre a literatura e o país. De acordo com a proposta, seus romances se dividiriam em grupos, correspondentes a diferentes assuntos e fases da história brasileira:

a) Lendas: "A [fase] primitiva, que se pode chamar aborígine, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que embalaram a infância do povo, e ele escutava como o filho a quem a mãe acalenta no berço com as canções da pátria, que abandonou." O escritor coloca nesta categoria Iracema (1865). Mais tarde, ele escreveria Ubirajara  (1874), que também pode ser nela enquadrado.

b) Romances históricos: "O segundo período é histórico: representa o consórcio do povo invasor com a terra americana, que dele recebia a cultura, e lhe retribuía nos eflúvios de sua natureza virgem e nas reverberações de um solo esplêndido." Alencar lista aqui O guarani (1857) e As minas de prata (1862-1866). O primeiro volume de Guerra dos mascates (1871) já viera à luz, mas não é mencionado em "Benção paterna". Posteriormente, o escritor publicaria Alfarrábios (1873), o segundo volume  de Guerra dos mascates (1875) e O sertanejo (1875). 

c) Romances regionalistas: Alencar não usa o termo "romance regionalista", que foi consagrado pela crítica. Segundo Alencar, esse grupo compõem-se dos romances que retratam, no período posterior à independência política do Brasil, aqueles lugares "onde não se propaga com rapidez a luz da civilização, que de repente cambia a
cor local, encontra-se ainda em sua pureza original, sem mescla, esse viver singelo de nossos pais, tradições, costumes e linguagem, com um sainete todo brasileiro." Neste grupo, o escritor elenca O gaúcho (1870), Til (1871) e O tronco do ipê (1871).

d) Romances urbanos: O termo também não é usado por Alencar, mas consagrado pela crítica. São narrativas  que se concentram "nos grandes focos, especialmente na corte", onde "a sociedade tem a fisionomia indecisa, vaga e múltipla, tão natural à idade da adolescência. É o efeito da transição que se opera; e também do amálgama de elementos diversos. A importação contínua de ideias e costumes estranhos, que dia por dia nos trazem todos os povos do mundo, devem por força de comover uma sociedade nascente, naturalmente inclinada a receber o influxo de mais adiantada civilização." Lucíola (1862), Diva (1864) e o próprio Sonhos d'ouro (1872) são enquadrados neste grupo por Alencar, que "esquece" Cinco minutos (1856) e A viuvinha (1857). Mais tarde, viriam Senhora   (1875) e Encarnação (publicado postumamente em 1893).

Fonte:

ALENCAR, José de. Benção paterna [prefácio de Sonhos d'ouro]. In: ALENCAR, José de. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959, v1, p. 691-702.

Ubirajara - lugar de ação.jpg
Concepção do atlas: Pesquisa

"O Tronco do Ipê, o Til e o Gaúcho, vieram dali [ dos lugares onde não se propaga com rapidez a luz da civilização]; embora, no primeiro sobretudo, se note já, devido à proximidade da corte e à data mais recente, a influência da nova cidade, que de dia em dia se modifica e se repassa do espírito forasteiro."

A distância e o tempo

TEXTO EM CONSTRUÇÃO. PREVISÃO: 15/12/2020

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O arqui-romance alencariano

Em “Benção paterna”, prefácio do romance Sonhos d'ouro, Alencar  buscou organizar sua obra em torno de um fio condutor em que se entremeiam as suas ideias sobre a literatura e o país. De acordo com a proposta, seus romances se dividiriam em grupos, correspondentes a diferentes assuntos e fases da história brasileira:

a) Lendas: "A [fase] primitiva, que se pode chamar aborígine, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que embalaram a infância do povo, e ele escutava como o filho a quem a mãe acalenta no berço com as canções da pátria, que abandonou."

b) Romances históricos: "O segundo período é histórico: representa o consórcio do povo invasor com a terra americana, que dele recebia a cultura, e lhe retribuía nos eflúvios de sua natureza virgem e nas reverberações de um solo esplêndido."

c) Romances regionalistas: Alencar não usa o termo "romance regionalista", que foi consagrado pela crítica. Segundo Alencar, esse grupo compõem-se dos romances que retratam, no período posterior à independência política do Brasil, aqueles lugares "onde não se propaga com rapidez a luz da civilização, que de repente cambia a
cor local, encontra-se ainda em sua pureza original, sem mescla, esse viver singelo de nossos pais, tradições, costumes e linguagem, com um sainete todo brasileiro."

d) Romances urbanos: O termo também não é usado por Alencar, mas consagrado pela crítica. São narrativas  que se concentram "nos grandes focos, especialmente na corte", onde "a sociedade tem a fisionomia indecisa, vaga e múltipla, tão natural à idade da adolescência. É o efeito da transição que se opera; e também do amálgama de elementos diversos. A importação contínua de ideias e costumes estranhos, que dia por dia nos trazem todos os povos do mundo, devem por força de comover uma sociedade nascente, naturalmente inclinada a receber o influxo de mais adiantada civilização."

Fonte:

ALENCAR, José de. Benção paterna [prefácio de Sonhos d'ouro]. In: ALENCAR, José de. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959, v1, p. 691-702.

Mapa de azulejos - Tijuca - 1943.jpg
Concepção do atlas: Pesquisa
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